Jornalistas: liberdade de imprensa não é libertinagem

1 Aug

Estava lendo as feeds no GReader, e me deparei com uma notícia:

“Ela tinha demência e morreu em sua casa, de acordo com nota oficial. Nascida em Nova York em 1923, ela queria ser artista desde criança.”

“Demência”? Ok, segundo o que uma amiga jornalista falou, é um tipo de esquizofrenia. É o nome de uma doença, realmente, e a palavra não estava errada quanto ao seu significado. O que acho é que esse foi um caso que demonstra uma característica cada vez mais comum nos jornalistas: falta de respeito.

E isso não se dá porque a pessoa é jornalista, mas porque a faculdade a educa a ser assim. Toda cadeira que fiz, que falava sobre jornalismo, sempre tinha um professor falando sobre um ex colega de faculdade que cobriu um grande furo, foi o primeiro a chegar, ou que fez o que os jornalistas devem fazer: “Conseguir a história a qualquer custo.”

Um texto daqueles, numa versão resumida de um feed, só pode ter um objetivo: conseguir leitores a qualquer custo.

Ok, pode ter sido um descuido. Mas, se foi, está aí mais uma falha do nosso ensino: a errata resolve. Mas, como nesse caso não houve erro, não haverá errata.

Voltando ao assunto, mesmo que o termo “demencia” esteja certo, seu uso é completamente inadequado. Digo porque: se a compreensão comum dessa palavra é algo perjorativo, um sinônimo deve ser usado. A menos que seja uma publicação especializada, o que não era o caso, pois era de um site sobre cinema. Uma suavizada é necessária, para preservar a imagem da pessoa que faz parte da notícia.

O jornalista não estaria alterando os fatos, nem negando a doença. Apenas estaria citando o problema que a pessoa teve, de uma forma digna. Mas, para não errar também, quero deixar claro que a doença não era o foco da notícia. A matéria não explorava a doença da pessoa, apenas (na minha opinião) falou subre ela, de forma inadequada.

É preciso respeitar o direito dos outros

Não vou ficar discursando sobre a parte do jornalismo que é intrusiva e fica tirando foto dos filhos dos outros, perseguindo as pessoas, só para contar fofoca, quem-faz-o-que-com-quem. Vou falar de jornalismo sério, mesmo.

Já trabalhei com jornalismo, em jornal, TV, etc. E o que vou descrever, vi casos parecidos ao vivo. Mas vou falar o que as pessoas de fora do meio podem acompanhar.

Quantas vezes aconteceu de sairem matérias em telejornal, com o jornalista ridicularizando a pessoa que se recusou a falar com ela. Nunca vou me esquecer de um caso que aconteceu logo depois da grande alteração do código de trânsito: uns jornalistas ficaram na rua, pegando imagens dos pedestres que não atravessavam na faixa.

Um desses pedestres, atravessou ao lado da faixa. A jornalista foi lá e perguntou pra ele o motivo dele evitar a faixa, e ele não respondeu. Obviamente, a narração era irônica, falando que ele nem tinha explicação para o seu erro.

Isso é uma coisa comum. Grande parte dos jornalistas, realmente, se ofende quando alguém não quer falar com eles. Esses jornalistas acham que as pessoas têm obrigação de atendê-las, mesmo que isso as prejudique. Mas como culpá-los (exclusivamente), já que uma frase é martelada desde o primeiro dia de faculdade: “Liberdade de imprensa existe no Brasil!”

Vários professores, ao longo do curso, dão o seguinte significado para essa frase: “Liberdade para a imprensa fazer o que quiser, existe no Brasil.” – E eu ilustro isso, falando de uma professora que tive, que no primeiro dia de aula com ela, puxou a carteira de jornalista e disse: “Com isso aqui, vocês conseguem entrar de graça e comer de graça aonde vocês quiserem. É passe-livre.”

Limites para o jornalismo

Então, é da faculdade que se formam os péssimos jornalistas. E da falta de limites. O problema é que, num país como o nosso, é muito perigoso permitir que os políticos imponham limites à imprensa. Portanto acho que está na hora dos jornalistas fazerem o que os publicitários fizeram há 30 anos atrás: criar um conselho de auto-regulamentação.

Eles têm um dos sindicatos mais fortes e atuantes do país. Conheço alguns dos membros do sindicato, os caras são bons e preocupados, mesmo. Mas está na hora de começar a impor limites, e ninguém melhor do que os próprios jornalistas para fazer isso.

Pois a informação nunca teve tanto valor quanto tem hoje em dia. Mais do que nunca, é preciso ser jornalista com responsabilidade.

Você pode querer ler:

  • fsdfsfs
    QUERO CUMER SEU CU MEU PAU TA COÇANDO SOU CABAÇO
  • bruna foscarini
    adoro essa gente.
  • Lucas Pereira da Rosa
    @Patrícia

    Aposto contigo que a maioria das pessoas pensou mal da personagem centra da notícia. Realmente, tenho minhas dúvidas de que alguém foi procurar no dicionário.

    E uma matéria sobre cinema, veículada na internet, é um local bastante inapropriado para dar esse tipo de educação. Como dizia a minha vó: "Existem lugar certo e hora certa, ou a inadequação."

    E, quebrar o pau contigo? Jamais conseguiria. Tu é gentil, até quando teimosa! :P
  • Bom, para início de conversa, e para esclarecer a quem mais venha a ler este texto, fui eu quem disse pro Lucas que "demência" é um tipo de esquizofrenia. Entendo a posição dele, mas afirmo que ele só se incomodou com a palavra devido ao mau uso que fazemos dela. Infelizmente, "demência" virou sinônimo de outras tantas coisas e ganhou significado pejorativo. Quando há a possibilidade de se explicar um termo no texto, ou quando é possível usar um sinônimo, acho que é isso que o bom jornalista deve fazer. No entanto, como disse a Cecília, neste caso não havia outra palavra que pudesse ser usada no lugar. Tentar dizer a mesma coisa com outras pavras cairia no eufemismo, que deve ser sempre evitado. Eu continuo com a minha posição (aquela que quase nos levou a quebrar o pau via Twitter, lembra, Lucas?!) a favor do uso da palavra. Como bem disse o Lucas, um dos papeis do jornalismo é educar as pessoas. E eu garanto que muita gente, ao ler este texto, correu para o dicionário mais próximo a fim de procurar o real significado de demência. Beijos para todos!
  • Lucas Pereira da Rosa
    @Cecilia

    Eu concordo em grande parte com o que tu escreveu, principalmente sobre a existencia de profissionais comprometidos, mesmo sem ter estudado na melhor faculdade do mundo. Eu conheço alguns e, dois em especial, quase me fizeram trocar de curso (por admiração ao trabalho deles, e a pessoa que eles são, não por eles tentarem me convenver).

    Só que um profissional da comunicação, independente da formação, tem a obrigação (no meu ponto de vista), de procurar a melhor alternativa. Não precisa ser o sinônimo exato para "demência". Pode ser, como eu disse acima, "distúrbios psiquicos". Acho que, se a palavra tem conotação ruim, mesmo que erroneamente, ela deve ser substituída.

    Acredito que o papel do jornalista atual, também é o de educar (o que, nos tempos em que vivemos, acaba sendo uma das obrigações de qualquer profissional), mas isso deveria ser feito em um artigo sobre saúde. A palavra usada pode denegrir a imagem da personagem da notícia. Não acredito que quem tenha escrito essa matéria, tenha tido essa intenção. Mas não acredito que essa pessoa tenha pensado nisso.

    Nós, profissionais da comunicação (eu incluso, obviamente), por muitas vezes temos a péssima mania de escrever as coisas pensando que todos os leitores tem o mesmo conhecimento cultural, e as mesmas condições ou inclinações de buscar informações adicionais. E isso, raras vezes é verdade. Por isso, é preciso cada vez mais cuidado.
  • Concordo com você quanto ao ensino e às muitas atitudes impróprias tomadas por parte dos jornalistas, apesar de saber que muitos não são assim e têm um comprometimento e cuidado maiores com o quê estão escrevendo, mesmo que não tenham cursado a melhor faculdade do mundo.
    Acontece que não tem um sinônimo mais sutil para a palavra. Ao que eu saiba a demência é uma doença que acomete pessoas com desenvolvimento intelectual normal e que, de repente começam a perder a compreensão, por causas variadas, como um desajuste hormonal. Seria uma espécie de oligofrenia (nesta doença, o sistema nervoso não se forma completamente) adiquirida, mais ou menos.
    Parece que no caso os sinônimos seriam caduca, gagá, ou coisas do tipo. Não dava...
    Também ia ser complicado falar: Ela tinha perda da capacidade cognitiva e morreu em sua casa, de acordo com nota oficial. Você não acha?
    O complicado da história é que na língua as palavras vêm e vão vestindo os mais diferentes significadose quando precisam voltar ao seu original causam estranheza.
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